A vida humana é um grande mistério, somos um único ser que possui corpo, alma e espírito e que devem estar integrados e harmonizados, sem confrontos ou dualismos, mas quantos são os que percorrem um caminho de equilíbrio entre matéria e espírito?
Os desequilíbrios em maldades, perversidades e toda forma de pecado se originam quando a criatura humana se volta e vive somente à materialidade da vida, pelas realidades externas tendo em vista saciar suas vontades e desejos meramente terrenos (comer, beber, possuir, mandar, dominar etc.) e sempre impulsionado pelo egoísmo que cega a si próprio e com isto impede olhar para os semelhantes com amor, respeito, compaixão e misericórdia indo ao encontro em socorro e auxílio diante de suas misérias e necessidades.
Iniciamos mais um profundo período quaresmal com a Liturgia das cinzas que possui força sacramental em ser sinal externo (na fronte ou na cabeça) a nos conduzir a dois sacramentos da vida cristã, o batismo e a confissão; o batismo porque nos deu a graça de um novo nascimento pela vida no espírito, em cultivarmos neste plano terreno uma espiritualidade que auxilie o equilíbrio e harmonia no todo de nosso ser, e a confissão ou penitência a olhar para nós próprios e reconhecer as fragilidades (pecados) que prejudicam o semelhante, a natureza e rompe o amor para com Deus.
É desta forma que o propósito quaresmal como um grande retiro popular, um ir ao deserto da própria vida, a partir “das cinzas” se torna um tempo oportuno para entrar no interior da vida e reconhecer-se humano e necessitado do “socorro” divino com sua misericórdia.
O que conta mesmo neste tempo quaresmal e para cada dia da vida não são propósitos programados para 40 dias e de forma intimista e voltados a aspectos materiais (não comer carne, não comer doce, não ingerir bebida alcoólica etc.), mas sim modificar a vida quer seja nos pensamentos, nas palavras e nas ações em vista da maturação humana e fraterna com relação aos semelhantes e toda a criação de Deus (universo).
Sábias e profundas palavras do Profeta Joel: “Rasguem o coração e não as roupas! Voltem para Javé, o Deus de vocês, pois ele é piedade e compaixão”. Convite sensato e de muita lucidez o Profeta faz, reconhecendo que todo ser humano não pode deixar o espírito abandonado aos caprichos da matéria pura e simplesmente, pois decorre em fraquezas e pecados e depois não resolvem atitudes externas para corrigi-los, mas sim uma modificação (conversão) pelo amor no coração.
É neste direcionamento que Jesus no Evangelho fará a recomendação sobre o rezar, o jejuar e o realizar a caridade, são três dimensões do viver que devem contribuir para o equilíbrio entre matéria e espírito; a busca de Deus pela via da oração (intimidade com Deus – espiritualidade sadia), regrar a matéria para não haver excessos (gula, dominação, orgulho, indiferença, preconceito etc.) e voltar-se aos semelhantes para amá-los e servi-los com caridade verdadeira, sem vaidades ou projeções, mas gratuitas e discretas.
A Campanha da Fraternidade 2020 será um forte apelo neste caminho de equilíbrio e harmonia entre matéria e espírito, pois que com o texto iluminador do bom samaritano: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34) faz avaliar o coração (interioridade) e perceber se existe ou não disponibilidade no amor de ir ao encontro dos que necessitam e na compaixão (sofrer com) exercer a caridade que salva.
Pe. Ademir Zanarelli.

